Cada cabeça, uma...


 
 
 
   
Foto: Reprodução
 
 
 
 
Audiência trabalhista. Empresa de um lado, trabalhadora do outro lado, chamada na Justiça do Trabalho de "reclamante".  Juíza pondera mas não chega a perguntar; "mas por que não ajuizou a ação logo que foi demitida da empresa estando grávida? Por que a ação foi ajuizada depois de alguns meses?"
 
 
Eu, advogada da trabalhadora, falo, mesmo sem ser perguntada; "A reclamante ajuizou a ação dentro do prazo para tanto, então, tinha direito de ajuizar quando ajuizou. Além disso, avisou a empresa que estava grávida quando foi demitida." A juíza: "Sim, mas poderia ter feito antes. Por que ela demorou tanto?" A pergunta dá a ideia de que era a trabalhadora que estava errada, e não a empresa, ao ser demitida grávida ou pela existência daquela ação trabalhista que foi feita para cobrar indenização pelo período de estabilidade decorrente da gravidez, e cuja estabilidade não foi respeitada pela empresa, ao demitir a trabalhadora estando ela grávida.
 
 
Eu; "Talvez porque após ser demitida estivesse desempregada, sem qualquer renda, não sabe ler nem escrever (e menciono vários documentos que juntei ao processo e que comprovam que ela os assinou apenas com a digital da mão), mora na periferia da cidade onde o acesso a diversos direitos são negados todos os dias a milhares de pessoas, a tarifa do transporte público de Ribeirão seja uma das mais caras do Brasil, é beneficiária do Bolsa Família (nesse momento levanto o cartão e mostro para a juíza), o que já remete ela a uma condição de pobreza ou extrema pobreza para poder se beneficiar de tal benefício social, então, talvez, ela tinha que escolher entre alimentar os dois filhos que já tinha e o que estava sendo gerado ao invés de gastar com quatro ônibus para chegar até o acesso a seus direitos. Talvez tenha sido por esses motivos, Excelência."
 
 
Falo olhando para a juíza e vejo sua face responder positivamente ao que falo, como se talvez ela nunca tivesse pensado daquela forma.
 
 
Após, iniciamos tratativas para um acordo. Parte da juíza a proposta de acordo, ao sinalizar uma condenação, que, porém, não sabemos de quanto seria. A empresa propõe parcelar. A juíza pergunta se dá para ser à vista o pagamento. Por fim, fechamos um bom acordo e parcelamos em algumas parcelas.
 
 
Momentos depois de fechar o acordo a juíza comenta; "Está difícil sair pagamentos à vista. Até o Santander outro dia parcelou." Eu faço algumas ponderações após esse comentário da juíza, no sentido de contestá-lo, mas a ponderação mais delicada que faço é dentro de mim mesma pensando nas vidas que dependem da concepção de vida que tem outras pessoas.
 
 
Raquel Montero
 

    



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