Igualdade de gênero na palavra também


A gente fala
pede
reivindica
igualdade de gênero
nas relações
no trabalho
no salário
em que tudo que se pratica
 
 
mas já na escrita
no texto
no manifesto
em toda grafia
permanece o erro
a desigualdade
o equivoco ou a maldade na travessia
 
 
continuam a se referir ao "o" ou ao "os"
para falar também do "a" ou "as"
Assim é em todas as referências
precedências
 
 
Ordem dos Advogados
Sindicato dos Trabalhadores
Associação dos Magistrados
Sala dos Professores
 
 
os alunos
os estudantes
os filhos
os palestrantes
os os os os
nada de as as as
 
 
ta na placa
no documento
no informe
no estabelecimento
 
 
é nacional, internacional
no jornal
na revista
na propaganda oficial
no convite informal
na certidão notarial
está tudo à vista
 
 
é tudo "o"
é tudo "dos"
eles, pra eles, é deles
 
 
colocam o "o" como se abrangesse o "a"
e o plural "dos" pra todas as "das"
 
 
Se a igualdade já não está na grafia
na menção
na descrição da escrita do escriba
na ideia que nasce
do conjunto de palavras
que faz o texto
o documento
o pretexto
já faz desigualdade então
e enfraquece a transformação que se busca na revolução
ou faz pior
 
 
faz dissolver, esvair
o conteúdo da ação que se está a imbuir
 
 
Se a ideia que precede a ação, a intenção
tá no texto
que formula o manifesto da revolução
a notícia que forma a opinião
que resume os fins do movimento
da organização
nesse texto também já deve estar
a igualdade que se quer realizar
 
 
"o" não é "a"
o plural de "as" não é "os"
e o "a" ainda precede o "o"
assim como o "das" o "dos"
 
 
já está errado na grafia
e mais ainda na ideologia
 
 
então para agir certo
escrever o correto
sem desafeto com a gramática
o gênero
a biologia
e transformar sem desigualar
deve ser "Ordem das Advogadas e dos Advogados,
Sindicato das Trabalhadoras e dos Trabalhadores,
Associação das Magistradas e dos Magistrados,
Sala das Professoras e dos Professores,
as alunas e os alunos,
as estudantes e os estudantes,
as filhas e os filhos
as palestrantes e os palestrantes"
 
 
Não se trata de uma letra apenas
a modificar
mas de tudo que ela quer significar
e quem escreve também contribui para o que se quer transformar.
 
 
Raquel Montero


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