O PARALELEPÍPEDO DA NOVE DE JULHO NÃO É O PROBLEMA, A FALTA DE MANUTENÇÃO NELES É QUE É


Foto: Reprodução
 
 
 
 
Sabe aquele ditado popular que diz "não jogue o bebê fora com a água do banho"? Então, cabe como uma luva nessa história dos paralelepípedos da Avenida Nove de Julho, cartão-postal de Ribeirão Preto/SP, e os debates que se instauram com propostas equivocadas de substituí-los por asfalto. O problema não é o paralelepípedo, ao contrário, ele é solução para muitos problemas. O problema é a falta de manutenção neles. As ruas de asfalto também recebem reparos e manutenção, por que reclamar, então, quando a manutenção é nos paralelepípedos? O correto é que as distorções sejam corrigidas, que os desníveis e buracos sejam reparados, eliminando o que é ruim, que são esses problemas, e conservando o que é bom, que é o paralelepípedo. "Vai a água suja e fica o bebê."
 
 
Especialistas no assunto defendem o uso de paralelepípedo nas vias das cidades como meio mais seguro para as pessoas através do tráfego mais devagar de carros e como meio ecologicamente correto. Dentre essas/esses especialistas está a renomada arquiteta e urbanista, mestre e doutora, Raquel Rolnik, Professora Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, que foi também Diretora de Planejamento da cidade de São Paulo e consultora de cidades brasileiras e latinoamericanas em política urbana e habitacional, Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades entre 2.003 e 2.007, Relatora Internacional do Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU (2.008 a 2.014), e é autora de livros e artigos sobre a questão urbana.
  
Explica Raquel Rolnik que os paralelepípedos são considerados ecologicamente corretos porque, com a característica de não contar com cimento ou outro material impermeável entre eles e abaixo deles, permitem a infiltração da água da chuva, fazendo a drenagem no local onde eles existem. As vantagens desta infiltração vão desde a recarga do lençol freático à diminuição da vazão da água direto para os mananciais, de maneira a diminuir os riscos de enchentes (e de enchente Ribeirão não quer nem ouvir falar).
 
 
Além desses benefícios os paralelepípedos contribuem para uma temperatura menos quente porque o asfalto tem o poder de absorver calor durante o período de insolação, este calor é liberado para o meio ambiente, o qual pode ser sentido pelas pessoas ao andarem pelas ruas asfaltadas. Com os paralelepípedos o comportamento é totalmente diferente, uma vez que este tipo de pavimento, por características geológicas da pedra, absorve menos calor. O paralelepípedo em contato direto com o solo de areia e terra de sua base, facilita a dispersão do calor absorvido, não irradiando o calor por muito tempo depois do período de insolação, deixando a temperatura mais amena e tornando o clima mais agradável.
 
 
E ainda, em mais dois aspectos o paralelepípedo ganha do asfalto; o financeiro e a durabilidade. A manutenção do paralelepípedo é mais barata do que a do asfalto e o pavimento de paralelepípedo tem mais resistência que o asfalto. O paralelepípedo em si não precisa de manutenção, mas, sim, a sua base. Já o asfalto é ele mesmo que sofre desgaste no tempo, precisando de remendos ou os famigerados "tapa-buracos".
 
 
É absolutamente possível ter vias regulares de paralelepípedo, e em uma rápida consulta na internet se pode constatar isso através de fotos e exemplos de onde elas existem, inclusive com existência secular e até milenar que permanecem até hoje.
 
 
Além de todos esses atributos quando o assunto envolver os paralelepípedos da Avenida Nove de Julho e a equivocada alternativa de substituí-los por asfalto, há que se lembrar que eles foram objeto de tombamento em 2.008, sob o Governo de Welson Gasparini, após decisão do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de Ribeirão Preto (CONPPAC), assim como também foram tombados os pisos das calçadas adjacentes e as árvores Sibipiruna. E foram tombados após reconhecido os valores históricos e culturais desses patrimônios. Esse reconhecimento também foi feito por turistas, e um dos mais renomados sites de viagem do Brasil, o TripAdvisor, comprova isso. Neste site a Avenida Nove de Julho, inaugurada em 1.922, com seus paralelepípedos quase seculares e suas suntuosas Sibipirunas que fazem um corredor verde na cidade, tem mais de 390 avaliações sobre seu valor histórico e cultural.
 
O valor histórico e cultural desses patrimônios vem da história que eles acumulam no tempo, registrando fatos e momentos que formam a cultura de uma cidade e seu povo, e através da conservação da existência deles esse legado cultural pode ser melhor repassado às novas gerações, da maneira mais eloquente e que vai além dos registros meramente fotográficos e escritos. Um povo que não valoriza e conserva sua história e cultura é um povo pobre, que menos pode ensinar, aprender e aprimorar.
 
Que se faça, pois, as manutenções necessárias, e que se conserve o patrimônio da cidade. Afinal, quem ganha com a destruição da cultura e da história de uma cidade e de um povo?
 
Raquel Montero  
 

  



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