Se a sociedade tem diversidade por que a maioria dos representantes do povo são homens, brancos e ricos?


 

Foto: Reprodução - vereadora eleita e vereadores eleitos em Ribeirão Preto/SP na legislatura 2016-2020

 

 

 

 

 

   A política é um instrumento. Assim como todo instrumento, pode ser usado de maneira positiva ou negativa. Uma faca utilizada para cozinhar, é um instrumento muito útil, já se utilizada contra uma pessoa, seu uso se torna negativo. Da mesma forma acontece com o dinheiro.

 

  Não é o instrumento em si que é ruim ou bom, é o uso que damos a ele. Assim acontece com a política. Se utilizada de maneira positiva, seu uso será bom, além de, por excelência, esse instrumento ser um dos melhores instrumentos para transformações sociais.

 

  Através da política são feitas as leis que podem mudar nossas vidas, para melhor ou pior, de acordo com o uso que for dado à esse instrumento. Além do uso que damos à esse instrumento é necessário que o seu exercício se dê com igualdade, justiça, equidade.

 

  Isso é óbvio, oras. Como esperarmos leis justas provenientes de situações de desigualdade e injustiça?

 

  Nesse sentido, então, os espaços de poder onde estão as pessoas eleitas para representarem o povo e fazerem as leis e projetos que podem mudar as vidas das pessoas do povo já deve abranger e conjugar igualdade, justiça e equidade, para que assim sejam feitas leis justas.

 

  Por exemplo, como podemos esperar acabar com a discriminação, preconceito e violência contra a mulher, pessoas negras, homossexuais, transgêneros se os espaços de poder já contém a desigualdade de não ter entre os seus pares a igualdade proveniente de todas as diferenças existentes na sociedade?

 

  No caso das mulheres, a mulher é a maioria na população, cerca de 52%, no entanto, historicamente são sempre minoria nos espaços de poder, como Casas de Leis e Governos, municipais, estaduais e federais.

 

  Ora, não dá para esperar que homens falem pelas mulheres e façam as leis destinadas a elas. Quem sente a dor é que deve falar onde, quando e como ela dói. Não é assim que faz um médico/uma médica, ao prescrever um medicamento ou dar um diagnóstico, ouvindo primeiro a própria pessoa que está doente?

 

  Como podemos esperar leis justas que enfrentem a violência e discriminação contra a mulher se as próprias mulheres não estão nos espaços de poder que fazem essas leis, para, elas mesmas, dizerem como, quando e onde dói?  

 

  Os homens estão dizendo isso por elas há tempos, como se eles pudessem dizer pelo paciente como é a dor ou suas mazelas.

 

  Exagero? Vamos aos números da realidade, então;  

 

do total de 513 parlamentares na Câmara dos Deputados, apenas 51 são mulheres, deputadas federais

 

do total de 81 parlamentares no Senado Federal, apenas 13 são mulheres, senadoras

 

do total de 94 parlamentares na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, apenas 10 são mulheres, deputadas estaduais

do total de 27 parlamentares na Câmara Municipal de Ribeirão Preto/SP, apenas 01 é mulher, vereadora.

 

  

  Esses números não nasceram agora. São históricos, com ínfimas diferenças nas legislaturas anteriores. Em Ribeirão Preto, na anterior legislatura, 2012-2016, eram duas mulheres vereadoras de um total de 22 parlamentares, na legislatura de 2009-2012, eram duas mulheres vereadoras de um total de 20 parlamentares.

 

  Nos mais de 500 anos de Brasil, Dilma foi a primeira mulher presidenta da República. Nos mais de 160 anos de Ribeirão Preto/SP, Dárcy Vera foi a primeira mulher prefeita da cidade.

 

  E se fizermos o levantamento com relação a pessoas negras, jovens, homossexuais, bissexuais, transgêneros, a distorção é ainda maior.

 

  Há algo errado na representação do povo pelas pessoas eleitas para o representarem ou a sociedade é formada apenas por homens, brancos e ricos?

 

  A sociedade tem diversidade. Tem pessoas negras, brancas, índios, jovens, idosas, mulheres, homens, homossexuais, heterossexuais, bissexuais, travesti, etc. Tem muita diversidade, com diferentes raças, orientações sexuais, identidades de gênero, idade, classe social, formação, etc.

 

  Não temos só homens, brancos e ricos na sociedade, para só estes estarem, numa maioria esmagadora, nos espaços de poder representando o povo como seus deputados, senadores, vereadores, governadores, prefeitos e presidente da República.

 

  E enquanto essa diversidade não for respeitada e estar nos espaços de poder não esperemos vivermos numa sociedade justa, fraterna e solidária, porque não haverá justiça, fraternidade e solidariedade com injustiça e desigualdade.

 

  O caminho da justiça, é com a própria justiça, e não através de injustiça. O caminho da igualdade é com a própria igualdade, e não através da desigualdade.

 

  Desigualdade só gera mais desigualdade, discriminação e preconceito. Não é a toa que temos uma mulher vítima de violência a cada 05 minutos no Brasil, que 70% dos casos foi o próprio marido, namorado ou companheiro que praticou a violência, que em 70% dos casos essa violência ocorreu dentro do próprio lar, que 50% das mulheres que saem de licença maternidade não conseguem retornar ao mercado de trabalho, que as mulheres recebam salário 30% a menos que os homens, e as mulheres negras recebam salário 30% a menos que as mulheres brancas. Não é a toa que em 2017 mais de 398 pessoas LGBTI+ foram assassinadas no Brasil.

 

  São consequências da desigualdade também existente entre nossos/nossas representantes, as pessoas que têm o poder para transformar nossas vidas, para melhor ou para pior, a depender de quem esteja nos representando e como esteja utilizando esse instrumento de poder.

 

Raquel Montero



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